Entenda a Marcha pela Humanização do Parto

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Marcha pela Humanização do Parto mobiliza 300 participantes em SP, entre mulheres e profissionais da saúde. Entre as reivindicações está a contenção do alto índice de cirurgias cesarianas.

 

 

“Parto com respeito, eu escolho é meu direito”, “Seu doutor, preste atenção: a mulher não quer cesárea não”. Esses foram alguns dos gritos que ecoaram pela Avenida Paulista na manhã deste sábado (19). Estavam ali reunidas cerca de 300 pessoas, entre mães, pais e crianças, doulas, obstetrizes e estudantes de enfermagem, em um movimento chamado Marcha pela Humanização do Parto. Além da capital, grupos de mulheres e profissionais da saúde se organizaram também em mais 30 cidades do país, como Santos, São Bernardo e Vitória.

 

A mobilização, que se concentrou na altura do número 900 da avenida – e marchou até o Fórum da Justiça Federal Ministro Pedro Lessa, ao lado do Masp – tinha como propósito cobrar agilidade no julgamento da ação civil movida pelo Ministério Público em 2010 para que a Justiça condene a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) a regulamentar os serviços obstétricos realizados por planos de saúde privados no país.

 

 

Michele Bass, 32, foi uma das mulheres que saiu de casa cedo para acompanhar a manifestação. Ela conta que, quando foi ter a filha Aisha, 3, passou por uma cesárea desnecessária. “Eu queria muito um parto normal, mas, como eu não tinha muita informação na época, acreditei quando o médico me disse que eu teria que fazer cirurgia, sem nenhum motivo aparente. Estava tudo indo bem com a minha gravidez”, conta a mãe que está terminando o curso para doula.

 

 

O produtor audiovisual Rodrigo Sarte, 39, marchava carregando a filha Maia, de 8 meses. Quando sua esposa, Daniela, estava grávida, o casal procurou alternativas ao parto realizado nos hospitais e, segundo Rodrigo, foi difícil conseguir um parto humanizado. “A gente conseguiu uma doula e uma parteira para fazer o nascimento em casa. Mas eu tenho consciência que foi porque eu tenho condições financeiras. Estou aqui hoje para que melhorem as políticas públicas de saúde para que minha esposa e eu não sejamos uma exceção”, diz.

 

 

O fim da Marcha

Foi necessária uma hora e meia até a marcha seguir por dois quarteirões da Avenida Paulista. Além dos gritos de guerra, cartazes com os dizeres Humanização do Parto, #HumanizaBrasil e Parir com respeito é meu direito eram exibidos e chamavam a atenção de muitas pessoas, inclusive pais com filhos, que passavam pela região e resolviam acompanhar os participantes.

 

 

O fim da Marcha aconteceu em frente ao Fórum da Justiça Federal Ministro Pedro Lessa. No local, a obstetriz Ana Cristina Duarte pediu agilidade no julgamento da ação civil para regulamentar os serviços obstétricos na rede privada (Foto: Raoni Maddalena)

Ao chegar em frente ao Fórum de Justiça, por volta das 12h15, a obstetriz Ana Cristina Duarte leu uma carta ao juiz da 24ª Vara Cível Federal que apontava os riscos que uma cesariana pode trazer à mulher e ao bebê, as taxas de mortalidade neonatal e os direitos da mulher. Ela pediu, ainda, prioridade na sentença da ação civil, que encontra-se na mesa do juiz desde o último 19 de agosto à espera de uma definição.

 

 

A Justiça Federal de Primeiro Grau em São Paulo informou, por meio da assessoria de imprensa, que a sentença deve sair até o final do ano.

 

 

Os próximos passos

A Marcha pela Humanização do Parto foi só a primeira de algumas ações que o grupo organizado de mães, doulas, parteiras e obstetrices está preparando. Até o final do ano, devem ser anunciados mais eventos, como a exibição do filme O Renascimento do Parto, de Eduardo Chauvet, que retrata a realidade obstétrica brasileira.

 

Para o ginecologista e obstetra Jorge Kuhn, a população, especialmente a mulher, só tem a ganhar com a conscientização da importância do parto humanizado. “O movimento está crescendo e é internacional. A gente quer fazer com que as pessoas que pensam em alternativas ao parto como é feito hoje vejam que existe um caminho alternativo. É uma volta ao protagonismo da mulher”, diz. O médico e um dos maiores ativistas da questão explica que o parto, antigamente, era um evento familiar, no qual a gestante decidia quem ela queria que fizesse parte daquele momento pessoal e emocional.

 

 

Um assunto complexo

A expectativa é que a regulamentação da ação civil de 2010 e o apoio da sociedade leve a uma diminuição do número de cirurgias cesarianas realizadas sem necessidade. Segundo dados do Ministério de Saúde, a cirurgia já representa 52% dos partos no Brasil, índice bem superior aos 15% recomendados pela Organização Mundial de Saúde (OMS). Ao analisar apenas os índices da rede privada, o número de cesáreas pode ultrapassar os 80%.

 

Embora os dados sejam chocantes, o ginecologista e obstetra Alexandre Pupo Nogueira, do Hospital Sírio-Libanês (SP), explica que é preciso muito cuidado para analisar a questão.  “Muitas cirurgias são feitas sem necessidade, apenas por comodismo, tanto dos médicos, que não precisam desmarcar consultas para realizar um parto a qualquer momento, quanto dos pais, que querem se organizar melhor.” E continua: “Eu ofereço parto normal para todas as minhas pacientes, mas a maioria delas escolhe a cesárea. Acho que é por um medo de um processo que é natural e não controlado pelo homem. No parto normal, o médico é um mero expectador. Na cesárea, é totalmente controlada. Qualquer problema que surgir em decorrência da cesárea, são riscos que o médico assume. No parto normal, os riscos são assumidos pela mãe. Por isso, tem muitas mulheres que preferem deixar na mão do médico do que na da natureza”, diz Pupo.

 

Fonte: Revista Crescer

 

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